Qual a alternativa à democracia?

Cada vez que alguém critica a democracia, vem gente falando: “tá, mas qual a alternativa?”

A alternativa é QUALQUER sistema de governo que funcione. Pode ser uma monarquia parlamentarista como o Reino Unido, pode ser uma república presidencialista como os EUA, pode ser até uma democracia direta como a Suíça, ou qualquer coisa que ainda não existe e a gente invente. A democracia liberal como sistema virou esse semideus que não pode ser questionado nem discutido: qualquer um que o faça é acusado de ser partidário de ditaduras (e a ironia é que há regimes ditatoriais em que se goza de mais liberdade individual e qualidade de vida do que em muitas democracias). Para Aristóteles, havia governos bons de um, de poucos e de muitos, e governos ruins de um, de poucos ou de muitos. Avaliava-se pela qualidade dos que exerciam o governo, não pela quantidade dos que participavam do governo.

É verdade que os dois primeiros exemplos que eu dei acima são democracias. Mas são democracias extremamente controladas. Tanto no Reino Unido quanto nos EUA o voto é distrital puro e facultativo, e em ambos o Chefe de Governo não é diretamente escolhido pelo povo. No caso do Reino Unido, obviamente, nem o Chefe de Estado é escolhido diretamente. Também na França vigora o voto distrital puro em conjunção com o semipresidencialismo: o povo elege diretamente o presidente, mas ele divide o poder com um primeiro-ministro que é responsável por todos os assuntos de política interna. A vantagem desse sistema, que chegou a ser cogitado por aqui no auge da crise política do governo Dilma, é que em caso de crise institucional derruba-se o gabinete e não o presidente, o que é muito mais simples e menos traumático.

Na realidade, a maior parte dos países desenvolvidos adota algum tipo de filtro entre a vontade popular e as instâncias decisórias da nação. Em lugar nenhum “a voz do povo é a voz de Deus”.

O que é imperativo é derrubar esse tabu de que o que a maioria decide é necessariamente melhor. Pra que isso seja verdade é preciso uma conjunção extremamente improvável de fatores: o sistema partidário deve oferecer opções sólidas ao eleitor (Dilma vs. Aécio já nos desqualifica de cara), eleitor esse que deve ser provido de um bom grau de cultura política e boa vontade em participar do processo político. Mesmo nos países ditos de primeiro mundo essa reunião de fatores não é comum, e o Brasil é provavelmente a única grande nação a partir do pressuposto de que TODO MUNDO com idade entre 18 e 70 anos tem condições de tomar decisões informadas acerca de temas complexos como macroeconomia, política externa e direitos fundamentais, quando a esmagadora maioria sequer consegue administrar a própria vida.

A voz do povo não é a voz de Deus, e com uma frequência alarmante pode ser a própria voz do capiroto.

 

Acompanhe Rafael Rosset no Facebook.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *