Pensamentos ideológicos sobre a Cracolândia

Primeira Parte

Quem afirma que um dependente de crack deve ser deixado em paz porque só ele sabe o que é bom para si está afirmando — por definição — que ele é responsável por seus atos e que, se cometer um crime (o que acontecerá mais cedo ou mais tarde), deve ser preso. É uma linha curiosa.

Parece contraditório que um liberal — alguém que, como eu, acha que o Estado não deve ser meter na vida dos cidadãos — seja a favor e uma intervenção, enquanto que alguém de esquerda — que acha natural o Estado se meter na vida dos cidadãos — seja contra.

Não há contradição do lado do liberal. O liberal acha que o Estado só pode se meter na vida de um cidadão para proteger os direitos de outro cidadão, e a cracolândia é um ameaça direta e permanente aos direitos dos demais cidadãos. É direito e obrigação do poder público recuperar o espaço público. Além disso, o fim de uma “comunidade de consumo” do crack elimina o local de encontro entre traficantes e combate a “cultura do crack”.

A questão da internação forçada é mais delicada. Acredito que o Estado não tenha o direito de se meter na vida de um cidadão nem sequer para protegê-lo, mas isso supõe que se esteja falando de um cidadão pleno, que sabe o que faz. Será esse o caso do dependente? Há bons argumentos para se achar que não, o que faria a internação justificável.

Drauzio Varella, que entende do assunto, acha admissível nos casos mais graves. Mas tenho visto vozes críveis dizendo que internação à força simplesmente não funciona, e que a única maneira de obter algum progresso é envolver as famílias, o que faz todo o sentido.

A dependência de drogas é, provavelmente, a questão social mais complexa que existe, mas uma coisa é certa: não se pode deixar tudo como está. Dória atirou no que viu e acertou no que não viu, pois está nos obrigando a discutir o assunto.

A única liberdade que um dependente de crack da cracolândia tem é a liberdade de morrer de maneira precoce, dolorosa e possivelmente violenta. Não é preciso ser liberal nem socialista para querer impedir isso, basta ter um mínimo de decência e solidariedade humanas.

Segunda Parte

Muitos dos que acham que se deve deixar a cracolândia exatamente como está, seguem o seguinte raciocínio: se aquelas pessoas estão lá, é por “culpa” do Estado, que não lhes deu educação, oportunidades etc. Ora, se o Estado falhou com essas pessoas, não pode exigir delas o mesmo comportamento que exige dos cidadãos “normais” (com quem, aparentemente não falhou).

É difícil conceber um raciocínio mais pedestre do que esse, mas ele é frequente. Nós, aqui no Rio, vimos esse raciocínio alcançar sua glória nos anos 80, quando o governador Leonel Brizola proibiu que a polícia subisse os morros. Todo mundo sabe o que aconteceu: os morros passaram a ser controlados pelos traficantes, e as maiores vítimas foram justamente os favelados, a quem o Estado falhou, dessa vez, deliberadamente.

Outros seguem um raciocínio vindo da contracultura dos anos 60, que acha que o uso de drogas ilegais é um nobre ato de rebeldia contra o Estado repressor burguês. Como se o dependente de crack tivesse uma ideologia, não fosse alguém que está simplesmente doente. Esse raciocínio não é pedestre. É estúpido.

Aliás, por falar em rebeldia contra o Estado burguês, não custa lembrar que o Estado socialista considerava consumo de drogas um desvio burguês, e o tratava com internação compulsória… em campos de trabalhos forçados.


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