A UNESCO e sua pesquisa engajada

A UNESCO promoveu uma pesquisa, divulgada ontem, que mostra um dado assustador: ser uma jovem negra no Brasil significa ter 2.2x mais chances de ser assassinada em relação a uma jovem branca (http://www.forumseguranca.org.br/…/FBSP_Vulnerabilidade_Juv…). Todo o relatório corrobora a tese de que há um “genocídio negro” no Brasil, termo utilizado por Marlova Neto, representante da Unesco no Brasil, ao apresentar o relatório (http://jconline.ne10.uol.com.br/…/relatorio-mostra-que-ser-…).

Já no prefácio, se lê que “visando somar esforços para combater o fim da violência contra os jovens negros, a Organização das Nações Unidas no Brasil (ONU-BR) reuniu seus 26 organismos na campanha Vidas Negras, que busca sensibilizar a sociedade brasileira sobre a importância da prevenção e do enfrentamento à discriminação racial.” E na sequência: “a cor da pele dos jovens está diretamente relacionada ao risco de exposição à violência a que estão submetidos.” A conclusão do estudo, portanto, já está contida na introdução, o que levanta a suspeita de que seus autores saíram a campo apenas para confirmar suas próprias opiniões pré-existentes. Trata-se, assim, de uma pesquisa ENGAJADA, feita para atender a uma determinada narrativa.

Isso está de acordo com os objetivos da entidade que patrocina o estudo, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em seu site, lê-se que “a atuação do FBSP vem permitindo que os dados existentes sejam convertidos em insumo para a ação política. Mais do que a produção e divulgação de informações, busca-se consolidar uma NARRATIVA que seja assumida como crível e capaz de mudar o cotidiano da população” (http://www.forumseguranca.org.br/perfil/apresentacao/). Trata-se, portanto, de produzir dados que embasem um esforço de engenharia social (transformação da realidade).

Nada disso estaria inerentemente errado se ao menos as conclusões fossem tecnicamente corretas e intelectualmente honestas. Mas não são. Racismo seria uma questão relevante na análise dos homicídios no Brasil se brancos estivessem matando negros POR SEREM NEGROS, tipo uma versão tupiniquim de “Uma noite de crime”, só que todo dia. Mas não é isso que ocorre. Uma dissertação de mestrado de 1998, que analisou 4602 boletins de ocorrência de homicídio na cidade de São Paulo, demonstrou que metade das vítimas de assassinos negros também era negra, ao passo 56,8% das vítimas de assassinos brancos era também branca (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff17059803.htm). O detalhe é que mais brancos foram mortos por negros (39,8%) que negros mortos por brancos (39%).

O que isso significa? A rigor, nada. O corte estatístico que levou à conclusão bombástica do estudo da UNESCO, ou à minha própria conclusão, é totalmente arbitrário. Eu poderia continuar fazendo incisões pontuais nos dados para provar literalmente qualquer coisa que eu quisesse. Com base no número de homicídios por 100 mil habitantes, eu posso concluir que é 8 vezes mais perigoso morar no Brasil do que nos EUA, por exemplo. Se o Grupo Gay da Bahia divulga que “morre um LGBT a cada 24 horas no Brasil”, eu posso concluir que ser gay diminui em 150 vezes sua chance de ser assassinado, já que morre um hétero a cada 10 minutos por aqui. E se eu complementar que mais de 2/3 dos assassinatos envolvendo gays são cometidos por outros gays, por razões passionais, eu posso concluir que os maiores homofóbicos são os próprios homossexuais.

Esse é o problema de se utilizar métodos estatísticos nas Ciências Sociais. Primeiro que as humanidades em geral são absurdamente suscetíveis ao falseamento pelo discurso. A prova do Teorema de Fermat é válida em qualquer parte do universo, mas a teoria de gênero pode significar literalmente qualquer coisa a depender de quem a formula, de onde a formula e quando a formula. Mas talvez o efeito mais perverso seja o fato de que a estatística neste contexto trafica o prestígio inerente da matemática ao campo ideológico, fazendo com que as pessoas acreditem piamente naquilo que desmente seus próprios sentidos e tornando a refutação da mentira uma tarefa muito mais difícil e trabalhosa.

Cuidado, muito cuidado, com números associados a temas ideologicamente disputados. Como dizia Benjamin Disraeli, “há 3 tipos de mentiras: mentiras, mentiras terríveis e estatísticas”.

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