A banalização da ética

Em 1961 a filósofa alemã, naturalizada norte-americana, Hannah Arendt foi corresponde da revista New Yorker no julgamento de Adolf Eichmann por crimes de genocídio. Eichmann, que era um tenente coronel da SS e um dos principais organizadores do Holocausto, se declarou inocente, no entanto, foi condenado por todas as quinze acusações que pesavam contra ele e enforcado em 1962, nas proximidades de Tel Aviv.

Não quero aqui fazer comparações simplistas entre as atitudes desse monstro com nossa elite política, apesar de em última instância de meu pensamento acredito que indiretamente políticos com seus atos podem ter sim ter assassinado milhares de brasileiros inocentes, com sua ganância por dinheiro e poder, em filas de hospital e em casos de violência pelo país. O que gostaria de parametrizar é apenas a atitude de todo sistema politico brasileiro de conseguir deixar de lado os mais básicos conceitos de ética que podem existir como fez Eichmann.

Muitos apontam nisso uma psicopatia, eu vejo banalização, ou seja, a questão não é saber discernir o que é certo ou errado, é não se importar em fazer o errado, é saber exatamente o que está fazendo e não se importar, por que desse modo é mais fácil atingir seus objetivos. Irrelevante também é o partido político ou o viés ideológico, não existem amarras morais para esse pessoal, apenas uma teatralização de toda uma preocupação com o país que na verdade não existe. Existe é o poder pelo poder, o “se dar bem”, o “levar vantagem”.

Em 1963 Arendt publica um livro – Eichmann em Jerusalém. Nele, ela descreve não somente o desenrolar das sessões do julgamento, mas faz uma análise do “indivíduo Eichmann”. Segundo ela, “Adolf Eichmann não possuía um histórico ou traços antissemitas e não apresentava características de um caráter distorcido ou doentio. Ele agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática. Cumpria ordens sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o Bem ou o Mal que pudessem causar”. Segue-se isso a uma reflexão como a que todos devemos ter feito a tomar conhecimento de um caso de selvageria como o que foi vítima o jornalista Tim Lopes. Ele foi sequestrado, torturado e executado por traficantes liderados por Elias Pereira da Silva, o “Elias Maluco”, temos como reação ficar chocados com o fato, mas não com o agente que o praticou tenha tido capacidade de fazê-lo. Aí que está o ponto a ser percebido em um personagem como Michel Temer, como não ficar chocado com os atos de um professor de direito, um acadêmico renomado, um político de carreira que várias vezes presidiu a câmara de deputados, vice-presidente de Dilma e que teria como ápice à presidência da república.  Que justificativa tem esse sujeito tão preparado e consciente para chutar de forma tão vexaminosa a ética. Será que por achar que qualquer transgressão à ética é aceitável para atingir um bem maior como nos quiseram fazer acreditar José Dirceu e José Genuíno?

Voltando a filósofa, a mesma argumenta que “o mal não é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. É político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso – em razão de uma escolha política. A trivialização da violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala”. Ao que parece isso não se aplica somente ao mal, o caráter e a honestidade sucumbem em nosso país privado da ética. Elias Maluco me amedronta, mas não me surpreende, Michel Temer me aterroriza e me choca pois ele reflete toda uma geração de políticos que ainda comandam o Brasil.

Em tempo preciso ressaltar que nenhum momento quis dizer que o que acontece no Brasil, apesar de sórdido, tem comparação com um acontecimento  tão triste para a humanidade quando a industrialização do assassinato como ocorreu na Alemanha Nazista. Quero apenas mostrar que a observação de Hannah Arendt de “banalizar”, de tomar como comum e aceitável atos vis acontece com nossos políticos. Se diz que é a ética que nos separa dos animais, me parece que Michel Temer faltou a essa aula e escrevo isso de maneira singela.

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